Vontades

por Luís Pimentel
9 de maio de 2012 às 12:21 PM

– Tenho vontade de mandar tudo pro inferno – disse o menino descalço.
– Tenho vontade de jogar bola – falou o que calçava tênis.
– Besteira, jogar bola, correr sem motivo – disse o menino que não tinha tênis.
– Não é sem motivo. É atrás da bola – insistiu o menino que tinha.
Um olhou pro tempo. O outro espantou um gato.
– Você diz isto porque tem tênis – falou o menino descalço, depois de pensar um pouco.

(Luís Pimentel)

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Prenúncio

por Luís Pimentel
26 de abril de 2012 às 9:01 PM

O amor é assim mesmo: num dia esquenta, no outro causa distúrbios. Um dia nos leva à louca euforia, no outro à mais tenebrosa depressão. Fim de tarde é bom mas pode parecer descompromisso. À noite, quase sempre iluminado, pode também ser o prenúncio de um dia seguinte às escuras. Sal e cereja, palpitar e tremores, visão nublada, do beijo ao vômito. Igualzinho, querida, a esse maldito conhaque.

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Estradas

por Luís Pimentel
19 de abril de 2012 às 10:24 AM

Havia um caminho cheio de pedras. E também umas poças, numa delas o pai estava caído, bêbado e sujo, a cara mergulhada na lama.
Muitas vezes refez o caminho em busca de outras estradas, o peito se maldizendo entre as poças, os pés sofrendo nas pedras.
Mesmo depois, quando o pai já não havia, nem o caminho, nem poças, nem pedras, nem lama, só a mesma dor rasgando a partir do umbigo.
Não se iluda, meu filho. A vida não é essa estrada lisa, limpa e luminosa dos anúncios de automóveis.

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Viúva negra

por Luís Pimentel
22 de março de 2012 às 4:35 PM

Ela disse que às vezes sentia vontade de matá-lo durante o sexo, ou de tanto sexo, ou depois, como aquela espécie esquisitíssima de aranha.
Ele disse “sei, sei, compreendo, a viúva-negra”, enquanto se vestia e penteava os cabelos para sair. Ela insistia “é verdade, matá-lo, esganá-lo, castrá-lo e correr a exibir o troféu pelas ruas, que nem a personagem do Império dos sentidos”.
Ele disse “eu sei, sei como é, mas trata de dormir, amanhã você pensa nisto”, e bateu a porta.

(Luís Pimentel)

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Juras

por Luís Pimentel
6 de março de 2012 às 12:37 PM

Noite sonsa e nordestina. Casal de namorados troca juras na Praça da Matriz:
– Acabo de pagar o terreno. Logo, logo, teremos o nosso cantinho.
A lua, que já viu de tudo, ri dos dois, maliciosa e debochada.

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Compaixão

por Luís Pimentel
23 de fevereiro de 2012 às 6:15 PM

Deu um beijo molhado, alisou seus ralos cabelos, jurou amor eterno e subiu os degraus da porta do ônibus. Pela janela, atirou mais um beijo, encostando os lábios nos dedos e soprando em sua direção. Juntamente com o comentário, cheio de compaixão:
– Não chora, amoreco. Já disse que volto.
– Jura?
– Quem jura, mente. E se cuida direitinho, viu?
… – Vi.
– Toma sopinha, pega sol da manhã, não sai no sereno.
O ônibus partiu e ainda bem. Pois o jovem namorado, na poltrona aos fundos, já começava a demonstrar impaciência.

Do livro “Cenas de cinema – conto em gotas” (Editora Myrrha)

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